A banda pernambucana Ave Sangria, que enfrentou a censura durante a ditadura militar de 1974, receberá uma indenização do Estado brasileiro. A decisão foi confirmada pela Comissão de Anistia do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania na quinta-feira (26).
Conhecida como um dos marcos da psicodelia no estado de Pernambuco, a Ave Sangria viu sua trajetória abruptamente interrompida pela repressão do regime militar. O hit “Seu Waldir” abordava uma relação homoafetiva e, devido a isso, provocou a retirada de seus discos das prateleiras de lojas, que foram completamente censurados pela ditadura.
A decisão da Comissão resultou na concessão de uma indenização vitalícia de R$ 2.000 mensais, além de retroativo desde o início do processo. Manoel Moraes, conselheiro da Comissão de Anistia, esclareceu que as compensações financeiras não são capazes de reparar o impacto profundo que a repressão teve sobre a banda. O cancelamento da gravação de um segundo álbum e a dissolução do grupo marcam um legado de danos irreparáveis.
“O que estamos testemunhando aqui é um reconhecimento público e um pedido de desculpas pelos erros cometidos contra os integrantes da banda e a expressão cultural durante um período obscuro da história brasileira”, afirmou Moraes.
Marco Polo, vocalista e compositor da Ave Sangria, expressou sua emoção ao receber a notícia da anistia. Apesar de o tempo ter passado, ele ainda carrega as marcas do trauma gerado pela proibição do seu trabalho. “Embora não possamos recuperar nossa juventude ou o dinheiro que teríamos ganha, é gratificante saber que haverá reconhecimento financeiro pela injustiça que vivemos”, disse.
Almir de Oliveira, também membro da formação original, ressaltou a importância desse ato de reparação: “É um alívio retornarmos após todas essas experiências, e embora a compensação financeira seja significativa, o reconhecimento do que aconteceu é o que realmente importa. A democracia deve ser protegida para evitar que episódios semelhantes voltem a fazer parte da nossa história”, declarou.
Recentemente, em 2023, a Ave Sangria foi declarada Patrimônio Cultural Imaterial do Recife. O grupo continua sua trajetória artística, agora livre das restrições que marcaram seu passado e mantendo viva a chama da resistência criativa.
