O carnaval de rua em São Paulo experimentou um crescimento significativo nas últimas décadas, passando de apenas 20 blocos em 2012 para impressionantes mais de 600 atualmente. Desde 2014, o evento é regulamentado por meio de um decreto municipal, refletindo a importância cultural que essa festa tem para a capital paulista.
O Bloco Pagu, que se destacou no cenário após sua fundação há dez anos, é um exemplo notável dessa transformação. Com uma bateria composta exclusivamente por mulheres, a cofundadora Mariana Bastos expressa preocupações sobre a abordagem da prefeitura, que prioriza uma visão comercial em detrimento da valorização cultural dos blocos tradicionais. Segundo ela, a falta de suporte adequado deixa esses grupos em desvantagem em relação a megablocos patrocinados por artistas renomados.
Mariana ressalta: “Esses blocos que antes contavam com patrocínios de marcas agora têm que competir com megablocos comandados por grandes nomes, inclusive internacionais. A prefeitura deveria olhar para o carnaval como uma expressão cultural, não apenas como uma oportunidade de negócio.”
Um dos principais obstáculos enfrentados por blocos como o Pagu é a notificação tardia sobre horários e trajetos, que ocorre apenas três semanas antes do carnaval. Essa situação dificulta a captação de recursos, como exemplificado pelo coordenador Zé Cury, do Fórum Aberto dos Blocos de Carnaval de São Paulo, que representa cerca de 200 delas. Ele menciona que uma marca de cerveja oferece patrocínios que chegam a R$ 30 milhões.
De acordo com Zé Cury, “um bloco sem recursos que solicita patrocínio acaba em uma posição desfavorável. As empresas já estão se comprometendo com outros blocos, fazendo com que os menores trabalhem sem receber apoio financeiro”. Isso impacta diretamente na diversidade do carnaval de rua, que tem suas raízes em antigos cordões carnavalescos, como o que surgiu no Bairro da Barra Funda em 1914. Com o passar do tempo, muitos desses cordões se transformaram em escolas de samba, o que diminuiu a força das manifestações nas ruas.
Entre os blocos antigos ainda em atividade, o Esfarrapados, fundado em 1947 no Bairro do Bixiga, é um exemplo da conexão com a comunidade que muitos dos blocos atuais buscam resgatar. Segundo Pato Papaterra, um dos fundadores do Bloco Vai Quem Quer, a interação comunitária está se perdendo em meio à proliferação dos megablocos.
“Não se mantém uma comunidade dentro de uma multidão. Há uma carência de que as pessoas buscam se sentir parte de um grupo, em vez de se sentirem perdidas em grandes aglomerações”, afirma. Portanto, blocos tradicionais propõem a divisão do patrocínio entre diversas marcas, com valores acessíveis, além de solicitar maior dos recursos impostos arrecadados que, no último ano, alcançou R$ 3 bilhões e 400 milhões, resultando em uma arrecadação de R$ 180 milhões apenas na categoria do ISS.
Com atividades que geram impacto significativo, os blocos reivindicam um retorno mais justo da prefeitura. Mariana Bastos destaca a urgência de um diálogo mais transparente e de maior clareza na programação. “Precisamos que o poder público atue para que a tradição seja preservada e que não enfrentemos um apagão da cultura que foi construída ao longo dos anos”, conclui.
Em resposta, a prefeitura reafirmou que a viabilização financeira dos blocos é de responsabilidade dos organizadores, que devem buscar patrocínio. Também alegou que a infraestrutura para realização do carnaval de rua foi adequadamente planejada e que os horários e trajetos dos blocos foram divulgados nas datas corretas, embora a comunicação possa ser aprimorada conforme as necessidades dos organizadores.



