O Cerrado brasileiro vive uma crise profunda e contínua que avança longe dos holofotes e da prioridade política. Pesquisa recente publicada em revista científica internacional aponta que mais de 55 por cento da vegetação nativa do bioma já foi destruída, tornando o Cerrado o ecodomínio que mais perdeu cobertura vegetal no Brasil nas últimas décadas. A perda ocorre de forma acelerada e fragmentada, muitas vezes invisível aos olhos da sociedade.
Diferente da Amazônia, cuja devastação é associada à derrubada de grandes áreas de floresta, o Cerrado é composto por um mosaico de campos naturais, savanas, veredas e áreas rupestres. Essas formações possuem vegetação mais baixa e, por isso, são frequentemente tratadas como áreas sem valor ambiental. Essa percepção equivocada contribui para a destruição de ecossistemas que concentram alta biodiversidade e desempenham funções ecológicas estratégicas.
O estudo destaca que a crise do Cerrado não é apenas ambiental. Ela é também territorial, social, cultural e institucional. Ao longo de décadas, o bioma foi ocupado sem planejamento ecológico de longo prazo. Cada ciclo econômico deixou marcas profundas, da mineração à pecuária, da agricultura extensiva à expansão da agroindústria moderna.
A legislação ambiental vigente é apontada como um dos fatores centrais do problema. O Código Florestal estabelece percentuais mínimos de reserva legal que, embora estejam dentro da lei, não garantem a manutenção da funcionalidade ecológica do Cerrado. Na prática, a lei permite perdas consideradas legalizadas, mas ecologicamente insustentáveis, criando uma falsa sensação de proteção ambiental.
Entre 1985 e 2023, o Cerrado perdeu cerca de 380 mil quilômetros quadrados de vegetação nativa. Em Goiás, apesar de anúncios oficiais sobre redução recente do desmatamento, os dados acumulados mostram uma perda expressiva e contínua. Campos naturais e cerrados rupestres seguem sendo convertidos em áreas agrícolas, mesmo sendo regiões com alto grau de endemismo e baixa capacidade de regeneração.
Além da flora, o Cerrado abriga uma das maiores diversidades de fauna do planeta, com mais de 3.200 espécies de vertebrados. Mamíferos, aves, anfíbios, répteis e peixes já apresentam índices preocupantes de ameaça. Especialistas alertam que os números reais podem ser ainda maiores, especialmente no caso de insetos e invertebrados, cuja extinção ocorre de forma silenciosa e pouco monitorada.
A perda de polinizadores é apontada como um dos riscos mais graves, com impactos diretos na produção de alimentos e no equilíbrio dos ecossistemas. Muitas espécies desaparecem antes mesmo de serem descritas pela ciência.
O Cerrado também deve ser compreendido como território vivo. Povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, geraizeiros e comunidades tradicionais mantêm relações históricas com o bioma e foram responsáveis por sua conservação ao longo de gerações. No entanto, esses grupos seguem invisibilizados nos espaços de poder e raramente participam das decisões sobre políticas ambientais e uso do território.
Em Goiás, três povos indígenas reconhecidos vivem no Cerrado, mantendo línguas, tradições e modos próprios de relação com a natureza. Mesmo assim, a presença dessas populações em conselhos ambientais, comitês de bacia e processos decisórios ainda é mínima, o que compromete a eficácia das políticas públicas.
A crise ambiental também se manifesta na água. O Cerrado é conhecido como o berço das águas do Brasil, alimentando oito das doze principais bacias hidrográficas do país. A destruição da vegetação nativa já provoca redução da vazão dos rios, desaparecimento de nascentes e piora significativa da qualidade da água, afetando diretamente comunidades locais e grandes centros urbanos.
Especialistas alertam que manter o atual modelo de ocupação compromete a segurança hídrica, alimentar e climática do país. O conflito entre desenvolvimento e conservação é considerado falso. O problema não está em produzir, mas em produzir ignorando os limites ecológicos do bioma.
Caso o ritmo atual de degradação seja mantido, o Cerrado pode perder sua funcionalidade ecológica, com impactos que ultrapassam suas fronteiras e afetam todo o território nacional. O estudo aponta caminhos possíveis para evitar o colapso, como a ampliação de áreas protegidas, fortalecimento da ciência, valorização das comunidades tradicionais e reconhecimento do Cerrado como ativo estratégico para o equilíbrio climático global.
O Cerrado sustenta a água que corre nos rios, o solo que produz alimentos e o clima que regula o país. Sua destruição não é um problema regional, mas uma ameaça direta ao futuro do Brasil.


