O segundo mandato de Donald Trump vem redesenhando de forma profunda a política migratória dos Estados Unidos. O anúncio mais recente, feito nesta quarta-feira (14), determinou o congelamento da emissão de vistos de imigração para cidadãos de 75 países, entre eles o Brasil. A medida, no entanto, não é isolada. Ela integra um pacote mais amplo de ações que, desde 2025, vem tornando a entrada de estrangeiros no país mais cara, mais burocrática e mais restrita.
De acordo com o Departamento de Estado americano, a suspensão atinge apenas vistos de imigração, categoria que inclui pedidos de residência permanente, mas não abrange turistas. Ainda assim, o impacto simbólico e prático é significativo, especialmente para países que mantêm fluxo constante de imigrantes para os EUA. O governo não estabeleceu prazo para o fim do congelamento.
Desde o início do novo mandato, Trump tem defendido uma política migratória mais dura com base em argumentos de segurança nacional, combate à imigração irregular e proteção do mercado de trabalho americano. Na prática, isso se traduziu em uma série de mudanças que afetam diferentes perfis de estrangeiros, de trabalhadores altamente qualificados a estudantes, turistas e famílias em processo de imigração.
Uma das decisões que mais repercutiram foi o aumento expressivo dos custos. Em setembro de 2025, o governo anunciou a criação de uma taxa de US$ 100 mil para a concessão do visto H-1B, destinado a profissionais estrangeiros altamente qualificados, como engenheiros, cientistas e programadores. O valor passou a valer para novos pedidos e representa uma mudança radical no acesso de talentos internacionais ao mercado americano. Enquanto a Casa Branca afirma que a medida prioriza trabalhadores locais, especialistas alertam para o risco de afastar profissionais estratégicos da economia dos EUA.
Outra mudança foi a exigência de caução de até US$ 15 mil para alguns vistos de turismo e negócios. A medida, anunciada em abril de 2025, tem como objetivo conter visitantes que permanecem no país além do prazo autorizado. A exigência vale para 38 países, principalmente da África, Ásia e Oceania, e não inclui o Brasil, mas reforça o endurecimento geral da política migratória.
Em contraste com o bloqueio imposto a grande parte dos imigrantes, o governo Trump lançou, em dezembro de 2025, o chamado “gold card”. O programa permite que estrangeiros obtenham residência permanente mediante investimento financeiro: US$ 1 milhão no caso de indivíduos e US$ 2 milhões para empresas que desejam regularizar funcionários estrangeiros. Além disso, é cobrada uma taxa inicial não reembolsável de US$ 15 mil. Segundo o secretário de Comércio, Howard Lutnick, cerca de 10 mil pessoas já se inscreveram na fase de pré-registro, evidenciando que o acesso permanece aberto para perfis de alto poder econômico.
O endurecimento também alcançou a área de controle e vigilância. Desde junho de 2025, estudantes que solicitam visto são obrigados a manter perfis de redes sociais abertos para análise das autoridades americanas. O objetivo declarado é identificar possíveis ameaças ou manifestações consideradas hostis aos EUA. Em dezembro, o governo avançou ainda mais, propondo estender essa exigência a turistas de países que hoje não precisam de visto, obrigando-os a fornecer histórico de redes sociais dos últimos cinco anos.
As entrevistas presenciais também passaram a ser mais frequentes. Desde outubro de 2025, menores de 14 anos e maiores de 79 passaram a ser obrigados a comparecer pessoalmente a consulados, regra que antes tinha exceções mais amplas. A mudança vale para cidadãos de todos os países que exigem visto, incluindo o Brasil.
Além do congelamento agora anunciado, o governo Trump já revogou mais de 100 mil vistos desde janeiro de 2025, número considerado recorde pelo próprio Departamento de Estado. Em paralelo, cidadãos de 19 países tiveram a entrada totalmente proibida nos EUA, com listas divulgadas ao longo de 2025 e restrições válidas a partir de 2026. O Brasil não está entre eles.
Os efeitos dessas políticas já começam a aparecer no turismo. Dados do Conselho Mundial de Viagens e Turismo indicam que os Estados Unidos registraram queda de 6% no número de visitantes estrangeiros em 2025, mesmo em um cenário de crescimento global do setor. Enquanto isso, destinos como França, Espanha e Japão bateram recordes de visitantes, atraindo turistas que optaram por evitar as barreiras impostas pelos EUA.
Apesar da redução no número de estrangeiros, os gastos com turismo doméstico ajudaram a compensar parte das perdas, mantendo os Estados Unidos como a maior economia de viagens e turismo do mundo. Ainda assim, analistas avaliam que o conjunto de medidas adotadas no segundo mandato de Trump tende a reposicionar o país no mapa global da mobilidade, tornando-o menos acessível para estrangeiros comuns e mais seletivo em relação a quem pode entrar, permanecer ou se estabelecer.


