Construída em 1921, na zona rural de Morrinhos, no sul de Goiás, a casa de campo da família Romano atravessou mais de um século passando de pai para filho até chegar ao arquiteto Leo Romano, que assumiu a responsabilidade de restaurar o imóvel preservando sua história e sua função original como espaço de convivência familiar.
O casarão foi erguido por Beraldino Jesuíno de Sousa, bisavô paterno de Leo, e mais tarde ficou sob os cuidados de Nicanor Jesuíno de Sousa, avô do arquiteto, e de sua esposa, que viveram ali por muitos anos. Durante a infância, Leo frequentava a fazenda com os pais e o irmão, passando férias no local e criando uma relação afetiva com a casa, que também era parte importante da renda da família por meio do arrendamento das terras para atividades agrícolas.
Após a morte do avô, há cerca de 12 anos, a propriedade passou para o pai de Leo, Vasco Jesuíno de Sousa. Ao completar 70 anos, Vasco reuniu os filhos para saber se algum deles teria interesse em assumir o imóvel e conduzir um processo de restauração. Segundo o arquiteto, o pai já sabia que ele seria o único disposto a encarar o desafio.

O projeto começou alguns anos depois e avançava quando, uma semana antes da morte de Vasco, pai e filho entraram juntos no casarão durante a fase final da primeira etapa da obra. Leo conta que o pai se emocionou ao ver a casa recuperada e comentou que nunca imaginou presenciar o imóvel reformado, refletindo sobre como o avô reagiria se estivesse vivo.
A casa tem 270 metros quadrados e segue o estilo colonial característico do interior do Centro-Oeste, com linhas simples e poucos elementos decorativos. A planta original era organizada a partir de um corredor central, com sala de um lado e quartos do outro. Havia também um quarto destinado a viajantes que cruzavam a região a cavalo ou transportando gado, prática comum no início do século passado.
Com a restauração, o imóvel passou a contar com três suítes, sala de estar e cozinha integrada, mantendo a circulação central como elemento estruturante do projeto. Leo afirma que a proposta foi reduzir compartimentações e criar ambientes mais amplos, sem descaracterizar a construção original.

Além do casarão, outras edificações da fazenda foram adaptadas para novos usos. A antiga casa de café foi transformada em casa de hóspedes, a casa de monjolo virou um quarto e o antigo paiol passou a funcionar como cozinha de apoio para encontros familiares.
Grande parte da mobília precisou ser substituída, já que muitos móveis se perderam no período em que a casa ficou fechada. Entre os poucos itens preservados está um banco simples localizado na entrada do imóvel. No quarto da mãe do arquiteto, parte do mobiliário é original do casamento dela, o que mantém uma ligação direta com a história da família.
Morador de Goiânia desde o primeiro mês de vida, Leo mantém uma relação próxima com Morrinhos, cidade onde nasceu e que sempre fez parte da rotina familiar. Formado em Artes Plásticas pela Universidade Federal de Goiás e em Arquitetura e Urbanismo pela PUC-Goiás, ele divide hoje a agenda entre projetos no Brasil e no exterior, incluindo trabalhos nos Estados Unidos.

Mesmo com a rotina de viagens, o arquiteto visita a fazenda com frequência, geralmente duas a três vezes por mês, ao lado do esposo, o também arquiteto Marcelo José Trento Costa. O local segue sendo usado como ponto de encontro da família em datas comemorativas e momentos importantes.
Leo afirma que restaurar a casa foi um compromisso assumido com o pai e com a história da família, e que o imóvel continua sendo um espaço de convivência, memória e uso cotidiano, sem a intenção de transformá-lo apenas em peça de preservação.

