Goiás deixou de ser apenas uma referência do agronegócio e da mineração nacional para se tornar peça relevante em uma disputa geopolítica de alcance global. Estados Unidos, União Europeia e China intensificaram movimentos para assegurar acesso às reservas de terras raras localizadas no estado, minerais considerados essenciais para a indústria tecnológica, energética e de defesa.
O Brasil detém a segunda maior reserva mundial de terras raras, e parte expressiva desse potencial está concentrada em território goiano. Esses minerais são fundamentais para a fabricação de smartphones, baterias de veículos elétricos, turbinas eólicas, chips, sistemas de comunicação e equipamentos militares de alta precisão.
A corrida internacional ocorre em meio à preocupação crescente das potências ocidentais com a dependência da China, que hoje responde por cerca de 70% da produção global e domina quase toda a cadeia de refino. Esse controle garante a Pequim influência estratégica sobre setores sensíveis da economia mundial.
A União Europeia iniciou negociações formais com o Brasil para firmar acordos de cooperação em matérias-primas críticas. A proposta envolve investimentos conjuntos e apoio financeiro a projetos de mineração e processamento, incluindo terras raras, níquel, lítio e manganês. A estratégia europeia busca diversificar fornecedores e reduzir vulnerabilidades na cadeia de suprimentos.
Os Estados Unidos também ampliaram sua atuação. Representantes norte-americanos têm mantido diálogo com autoridades e empresários brasileiros com o objetivo de garantir acesso a depósitos ainda não explorados. A abordagem americana inclui oferta de financiamento ágil e articulação com investidores privados interessados no setor.
Nos últimos dois anos, projetos brasileiros ligados a terras raras captaram cerca de US$ 700 milhões em recursos internacionais, segundo levantamento publicado pela imprensa financeira internacional. Parte relevante desse capital veio de investidores ocidentais e bancos de fomento à exportação da Austrália, França, Canadá e Estados Unidos.
A China, por sua vez, mantém presença ativa no setor mineral brasileiro. Em 2024, aportou aproximadamente US$ 556 milhões no segmento, reforçando sua estratégia de assegurar participação em cadeias produtivas estratégicas fora de seu território.
No âmbito estadual, o governador Ronaldo Caiado participou de agendas internacionais voltadas à discussão de minerais críticos, sinalizando o interesse de Goiás em atrair investimentos e consolidar o estado como polo relevante na cadeia global de fornecimento.
O governo federal também acompanha a movimentação. A gestão petista defende o fortalecimento da industrialização interna, com instalação de refinarias e unidades de processamento em território nacional. A proposta busca evitar que o Brasil permaneça apenas como exportador de matéria-prima bruta, ampliando geração de valor agregado e empregos qualificados.
A discussão inclui o conceito de “friendshoring”, estratégia que prioriza cadeias produtivas entre países considerados parceiros estratégicos. Nesse contexto, o Brasil surge como alternativa relevante para países que desejam reduzir dependência asiática.
Com reservas significativas, demanda global crescente e interesse simultâneo de três grandes blocos econômicos, Goiás passa a ocupar posição estratégica em uma disputa que vai além da mineração. Trata-se de um movimento que envolve segurança econômica, transição energética, inovação tecnológica e reconfiguração das relações internacionais.
Com informações da Folha de S. Paulo

