Você já percebeu como falar de campo deixou de ser algo associado apenas ao passado? A jornalista especializada em agronegócio Kellen Severo propôs uma reflexão que vem ganhando força: a roça se transformou em um novo tipo de luxo. Não se trata de ostentação, mas de algo muito mais essencial. Tempo, silêncio, alimento de verdade e espaço para respirar se tornaram bens cada vez mais raros na vida contemporânea.
Na rotina urbana marcada por ruído constante, excesso de telas e pressão para estar sempre disponível, o campo passa a ser visto como refúgio. Deixa de representar apenas trabalho pesado e assume um novo significado. Não é apenas nostalgia, é uma reação concreta a um estilo de vida que esgota. Pesquisas indicam que o brasileiro passa, em média, nove horas por dia conectado, sendo mais de três horas e meia dedicadas às redes sociais, um número superior à média global. Esse cenário revela uma carência crescente por tempo de qualidade e por uma vida menos acelerada.
Esse movimento já impacta o mercado. O turismo rural global movimentou cerca de 32 bilhões de dólares em 2025, com expectativa de mais que dobrar na próxima década. Em vários países da Europa, cabanas em áreas isoladas, sem internet e com mínima interferência tecnológica, tornaram-se destinos disputados justamente por oferecerem silêncio e presença real.
Nos Estados Unidos, o modelo conhecido como Farmstay exemplifica essa tendência. Pessoas se hospedam em fazendas em funcionamento para vivenciar a rotina do campo, participar da ordenha, coletar ovos, plantar e colher. A proposta é experimentar o dia a dia rural de forma autêntica, não apenas descansar.
No Brasil, o turismo rural também cresce impulsionado pela busca por natureza, tranquilidade e alimentação mais próxima da origem. Estados como Minas Gerais, regiões do interior de São Paulo e o Rio Grande do Sul estão entre os destinos mais procurados por quem deseja caminhar na terra, respirar ar puro e desacelerar.
Diante de uma modernidade cada vez mais intensa, a simplicidade passou a ter alto valor. Comer alimentos colhidos no próprio local, ouvir sons da natureza e acordar sem o barulho do trânsito deixaram de ser apenas características do interior e passaram a representar um privilégio contemporâneo.
A reflexão proposta por Kellen Severo traduz uma mudança de percepção. Em um mundo excessivamente conectado, a vida simples do campo se torna símbolo de equilíbrio e bem-estar.

