O som metálico da ficha caindo, o teclado duro e a conversa rápida para economizar crédito já não fazem mais parte da rotina dos goianos. Em Goiás, os orelhões, que durante décadas garantiram comunicação a quem não tinha telefone em casa, vivem seus últimos anos. Levantamento da Agência Nacional de Telecomunicações aponta que restam apenas 104 telefones de uso público em funcionamento em todo o estado. Outros 59 estão registrados como em manutenção, muitos deles sem perspectiva real de retorno.
O processo de desaparecimento ganhou força em 2025, com o encerramento dos contratos de concessão da telefonia fixa no Brasil. A partir desse marco, as operadoras deixaram de ter obrigação legal de manter orelhões em locais já atendidos por sinal de celular. Na prática, a mudança abriu caminho para a retirada quase total dos aparelhos das áreas urbanas e rodoviárias.
Em cidades de médio e grande porte, os orelhões praticamente sumiram. Municípios como Goiânia, Anápolis, Rio Verde, Itumbiara e Catalão têm aparelhos cadastrados, mas todos estão inativos ou aguardando retirada. Em muitos casos, restam apenas as estruturas danificadas, alvo de vandalismo e sem qualquer função prática.
Resistência fora dos centros urbanos
Os orelhões que ainda funcionam estão concentrados em áreas rurais, assentamentos, vilas isoladas e pequenos municípios. Nesses locais, o telefone público continua sendo, em alguns casos, a única alternativa de comunicação por voz, especialmente onde o sinal de celular é instável ou inexistente.
Cristalina lidera o número de aparelhos ativos, com oito unidades em funcionamento, quase todas instaladas em comunidades rurais. Nova Roma aparece logo atrás, com seis orelhões operando. Também há registros ativos em cidades como Cavalcante, Niquelândia, Orizona, Padre Bernardo e Monte Alegre de Goiás, sempre fora do eixo urbano tradicional.
Em regiões do Nordeste goiano e em áreas de difícil acesso, o orelhão funciona como ponto estratégico para emergências médicas, contatos com órgãos públicos e comunicação básica com centros urbanos.
Mesmo nesses pontos de resistência, o uso é mínimo. Mais da metade dos aparelhos registra menos de uma ligação por dia. Alguns passam semanas sem qualquer chamada. O custo de manutenção, somado à falta de peças e de equipes especializadas, torna o serviço economicamente inviável.
Muitos dos aparelhos listados como em manutenção estão, na prática, abandonados. Permanecem nos cadastros apenas por questões administrativas, sem previsão concreta de reparo ou reativação.
A Algar Telecom informou ao Jornal Opção que segue um plano nacional de desativação dos telefones públicos, em conformidade com a regulamentação da Anatel. A empresa reconhece o papel histórico dos orelhões, mas afirma que eles foram superados pela telefonia móvel e pelas novas tecnologias de comunicação.
Segundo a operadora, a retirada das estruturas será feita com destinação ambientalmente adequada, garantindo reaproveitamento ou descarte correto dos materiais. A Algar afirma ainda que manterá em funcionamento os aparelhos que ainda sejam a única alternativa de comunicação em determinadas regiões, até que soluções tecnológicas estejam disponíveis. A empresa, no entanto, não detalhou a situação específica de Goiás.
A Oi informou que não atua mais como concessionária de telefonia fixa e que não tem obrigação de manter orelhões em localidades onde já existam alternativas de comunicação, como celulares e serviços digitais.
Durante décadas, o orelhão teve papel central na inclusão social e no desenvolvimento das telecomunicações no Brasil. Em um país onde o telefone residencial era caro e restrito, o telefone público garantiu acesso mínimo à comunicação para milhões de pessoas.
Para o economista Salatiel Correia, o desaparecimento dos orelhões segue a lógica da destruição criativa. Segundo ele, a ficha telefônica foi parte essencial do financiamento e da expansão da infraestrutura de telecomunicações no país, especialmente no período da Telebras. Com o avanço da fibra óptica, da digitalização e, depois, dos celulares, o modelo perdeu espaço.
Ele destaca que o mesmo processo atingiu o telefone fixo residencial, hoje cada vez mais raro, substituído pela mobilidade e pela praticidade da telefonia móvel.
Nem todos sentem saudade. Honorato, que usou orelhões com frequência na juventude, afirma que não sente falta alguma do equipamento. Para ele, o orelhão era apenas a solução disponível em um tempo sem alternativas. Havia filas, ligações rápidas e combinações feitas com antecedência.
Hoje, com o celular sempre à mão, ele considera o telefone público uma tecnologia superada, que cumpriu seu papel e ficou no passado.
Com a expansão do 4G, do 5G e da internet via satélite, até mesmo as regiões mais isoladas de Goiás devem ganhar conectividade nos próximos anos. A expectativa do setor é que, até 2028, os últimos orelhões em funcionamento no estado sejam definitivamente desativados.
O fim dos orelhões marca o encerramento de um ciclo da comunicação no Brasil. Um ciclo que conectou gerações, sustentou políticas públicas e agora se despede de forma silenciosa, enquanto novas tecnologias ocupam definitivamente o espaço.


