Liderança Xokleng reivindica memória indígena em Blumenau durante discurso na Câmara Municipal

6 Leitura mínima
Liderança Xokleng reivindica memória indígena em Blumenau durante discurso na Câmara Municipal

No dia 30 de abril, a liderança indígena Nandja, representando o povo Laklãnõ Xokleng e presidindo o Instituto Legdjyl, discursou na Tribuna Livre da Câmara Municipal de Blumenau. A presença de Nandja, facilitada pelo apoio do Vereador Jean Volpato (PT), foi uma manifestação significativa no contexto do Dia dos Povos Indígenas, celebrado em 19 de abril. Sua fala se destacou em um espaço que historicamente tem se mostrado distante das vozes indígenas, abordando questões profundas sobre a identidade e a memória do povo Laklãnõ Xokleng, localizado no Parque Nacional da Serra do Itajaí.

A Presença Indígena e a História de Blumenau

Nandja iniciou seu discurso afirmando ser herdeira do território onde se situa Blumenau, reavivando o nome original Laklãnõ — Kózy Lá — que remete à história anterior à colonização. Este reconhecimento faz parte de um esforço mais amplo para trazer à tona uma memória muitas vezes silenciada na narrativa oficial da cidade.

No encontro com os vereadores, a liderança enfatizou que o dia não deve ser comemorado como uma mera celebração, mas sim como um convite à reflexão sobre a realidade dos povos indígenas que habitam Blumenau atualmente. Nandja insistiu que as experiências de violência enfrentadas por seu povo não podem ser vistas como ações isoladas, mas sim como um resultado de políticas estatais que estruturaram a expropriação de terras e o apagamento histórico dos indígenas.

Ao abordar o passado, Nandja mencionou a figura dos bugreiros, responsáveis pela violência e genocídio do povo Laklãnõ Xokleng. Ela ressaltou a necessidade de revisar essa história, alertando que uma cidade que se nega a enfrentar seu passado em toda sua complexidade constrói uma identidade incompleta e problemática.

Recordando o contato forçado entre indígenas e não indígenas, Nandja citou os cerca de 160 sobreviventes ao massacre financiado pelo Estado e a importância do diálogo estabelecido em 1914, que garantiu a permanência de seu povo em sua terra. Essa parte da história é um testemunho da resistência diante de uma trajetória marcada pela opressão.

Com essa análise em mente, Nandja propôs a criação de um Museu da Memória Indígena Laklãnõ Xokleng, um espaço que poderia formalizar a rica história do povo e inscrevê-la na esfera pública da cidade, perpetuando a luta por reconhecimento.

Construção de um Museu para a Memória Indígena

A liderança lembrou que, em Santa Catarina, ainda há uma tendência de homenagear figuras ligadas à violência da colonização, como é o caso do bugreiro Natale Coral, homenageado em Veneza (SC) em dezembro de 2020. Esse reconhecimento é um contraste direto com a luta dos povos indígenas por preservação de sua própria memória, muitas vezes negligenciada pelo governo.

Além dos impactos físicos da violência, a dimensão simbólica se perpetua, como na recente tentativa de rebatizar o Vale do Itajaí como “Vale Europeu”, desconsiderando as raízes indígenas que moldam a região. Nandja criticou a ausência de espaços institucionais que reconheçam essa história, ressaltando que tal vazio só perpetua o apagamento.

Nandja deixou claro em sua fala que a proposta do museu busca fortalecer a memória coletiva, promovendo a educação, a cultura e o turismo em Blumenau. “Atualmente, os turistas conhecem apenas uma fração da história da nossa cidade”, ressaltou.

Ao finalizar, a liderança sublinhou que a proposta é uma iniciativa coletiva, representando o desejo da comunidade Laklãnõ Xokleng. Nandja mencionou o apoio que o projeto já recebeu, incluindo a mobilização de estudantes da Universidade Regional de Blumenau (FURB), e ressaltou que uma petição pública está em andamento para coletar assinaturas em favor da criação do museu.

O discurso de Nandja evidencia que o debate sobre a memória indígena em Blumenau ainda está longe de ser resolvido. A proposta do museu, em conjunto com as mobilizações emergentes, sinaliza um movimento crescente pelo reconhecimento e valorização das vozes indígenas na cidade, trazendo à luz uma história que, por muito tempo, foi esquecida nas narrativas oficiais.

A íntegra da fala pode ser conferida na TV Legislativa da Câmara Municipal de Blumenau.

Seminário na FURB Debate a Criação do Museu

No dia 27 de abril, a Universidade Regional de Blumenau (FURB) promoveu o seminário acadêmico-cultural Museu, Memória e Patrimônio Laklãnõ Xokleng: perspectivas para Blumenau. O evento, que ocorreu no auditório da Biblioteca Universitária, reuniu a comunidade acadêmica e a população para discutir a relevância da memória indígena na região.

A audiência foi marcada pela presença de indígenas Laklãnõ Xokleng da Terra Indígena Laklãnõ, que se uniram para apoiar a proposta do Museu da Memória Indígena em Blumenau.

O evento contou com uma mesa-redonda que incluiu a participação do líder indígena Cabechuim Ló Camlem, a historiadora Sueli Petry, e a museóloga Lucia Seara Valente, mediada pelo professor de História Alisson Sonaglio. Organizado pelo Diretório Central dos Estudantes da FURB em parceria com a Comissão de Diversidade e Inclusão, o seminário se destacou como um importante espaço de articulação entre a universidade, a comunidade e o movimento indígena, ressaltando a urgência de reconhecer a presença histórica e contemporânea do povo Laklãnõ Xokleng em Blumenau.

Foto: Divulgação – @culturafurb
Compartilhe este artigo
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *