Cientistas do Departamento de Ecologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro revelaram que as jaqueiras, presentes na Reserva Biológica de Duas Bocas, Espírito Santo, podem ter um impacto significativo no solo e na fauna local. Publicado na revista internacional Biological Invasion, o estudo, financiado pela Faperj (Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado), demonstrou como a presença dessas árvores exóticas modifica a estrutura do solo, prejudicando a biodiversidade da região.
A pesquisa identificou que áreas dominadas por jaqueiras apresentam uma camada de folhas mais rala e uma quantidade reduzida de insetos e invertebrados, essenciais para a cadeia alimentar. Juliane Ribeiro, líder da investigação, destacou que as jaqueiras não são nativas da Mata Atlântica e sua introdução, ocorrida há séculos, contribuiu para sua proliferação em várias partes da floresta, incluindo unidades de conservação. Ela detalhou:
“A jaqueira, uma espécie exótica invasora, possui características que a favorecem na ocupação do habitat, como a produção abundante de frutos e a liberação de substâncias químicas que inibem o crescimento de outras plantas, em um processo denominado alelopatia.”
Adicionalmente, o estudo revelou as implicações da jaqueira nas populações de sapos locais. Os efeitos, seja de forma direta ou indireta, variam entre as espécies, com sapos generalistas mostrando maior resistência às mudanças causadas pela invasão. Ribeiro enfatizou que esse padrão foi corroborado por investigações anteriores.
“Em um estudo realizado em 2020, examinamos pequenos mamíferos na mesma área e observamos resultados semelhantes: algumas espécies prosperam enquanto outras diminuem nas regiões dominadas por jaqueiras. Isso demonstra que a invasão não afeta grupos específicos, mas pode desestabilizar toda a comunidade de animais.”
Com um impacto similar ao de um filtro ecológico, a presença da jaqueira pode reduzir a diversidade da floresta e sua resistência a mudanças ambientais futuras. A pesquisadora observou que entender os efeitos das espécies invasoras é crucial para o manejo ambiental eficaz.
“É imprescindível que as medidas de controle levem em conta esses efeitos abrangentes, que também afetam a fauna. A responsabilidade é da sociedade, uma vez que a dispersão da jaqueira se deu em grande parte por ação humana. Tomar cuidados, como evitar o plantio de espécies exóticas em áreas naturais e não descartar restos de frutas na floresta, são ações simples que podem mitigar essa dispersão.”
Os especialistas recomendam que a remoção contínua das espécies invasoras deve ser acompanhada por iniciativas de restauração. Isso envolve a recuperação da serrapilheira e a reintrodução de vegetação nativa no sub-bosque da região.
