A contação de histórias, prática essencial para a formação cultural e a memória coletiva, enfrenta desafios diante do avanço das novas tecnologias. O hábito, que intensifica a imaginação e a criatividade desde a infância, é especialmente importante para o desenvolvimento do senso crítico entre os jovens. Porém, a crescente interação com dispositivos móveis tem alterado a forma como as histórias são contadas e recebidas pelos novos gerações.
Histórias têm sido uma forma primordial de comunicação e expressão ao longo da história. Compartilhar narrativas, lembranças ou mesmo sonhos requer não apenas um contador, mas também um ouvinte disposto. Contudo, a intensa concorrência pela atenção gerada pelas telas tem alterado a dinâmica dessa troca.
Ísis Madi, pesquisadora em educação pela Universidade de São Paulo (USP), enfatiza que a musicalidade e a linguagem têm o poder de envolver a criança desde a gestação. No entanto, conforme as crianças passam mais tempo expostas a dispositivos eletrônicos, momentos cruciais para a transmissão de histórias, como durante as refeições, estão desaparecendo:
“É à mesa que compartilhamos nossas narrativas diárias, lembranças da infância, e essas interações estão diminuindo. A nossa capacidade de concentração e imersão nesses momentos vem sendo prejudicada pela urgência da vida moderna e pelo uso constante das telas.”
Para reverter essa tendência, a atriz e escritora de literatura infantil, Adriana Nunes, tem promovido sessões de contação de histórias em escolas do Distrito Federal há aproximadamente uma década. Ela acredita que a arte desempenha um papel fundamental na preservação das tradições culturais:
“As narrativas podem servir como ferramenta de proteção e orientação. Com o medo, transmitimos mensagens de alerta; ao narrar lendas, perpetuamos a cultura de um povo.”
Durante suas oficinas, as crianças conhecem a história do sabiá através de músicas e livros, criando uma experiência que busca preservar a contação de histórias sem a interferência de tecnologias. Os resultados são animadores, com crianças se envolvendo e alegrando-se ao aprender sobre suas tradições:
“A presença das telas tem prejudicado esse tipo de interação. Mas quando conseguimos resgatar essas práticas, vemos o brilho nos olhos das crianças e o entusiasmo ao ganhar um livro após a atividade.”
Hórus, de 7 anos, frequenta uma biblioteca em Brasília e fala sobre seu gosto pela leitura:
“Eu gosto bastante de ler em casa, mas quando estou fora e encontro um livro, leio também.”
Outro estudante, Ícaro, de 8 anos, compartilha suas histórias em quadrinhos favoritas, como as aventuras da Turma da Mônica e do Pato Donald:
“A Mônica, o Cebolinha, o Cascão e a Magali foram brincar e depois foram para a casa do vô, onde tomaram suco de laranja e bagunçaram tudo.”
Ambos os jovens ressaltam a importância de bibliotecas e espaços de leitura na estimulação da imaginação e na valorização da tradição da contação de histórias, práticas que precisam ser preservadas diante das mudanças sociais e tecnológicas.
