Um painel sobre a tragédia do césio-137, que impactou Goiânia em 1987, foi um dos destaques da 27ª edição do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica), realizado na cidade de Goiás. Promovido em 18 de junho de 2026, o evento reuniu o diretor da minissérie “Emergência Radioativa” da Netflix, Fernando Coimbra, a sobrevivente Luíza Odet Mota dos Santos e a antropóloga Telma Camargo, com mediação de Benedito Ferreira.
Fernando Coimbra compartilhou que seu primeiro contato com a história ocorreu durante sua pré-adolescência. Em 1987, com apenas 11 anos, ele vivia em Ribeirão Preto e se lembrava da cobertura midiática do acidente. O diretor destacou que a tragédia, num contexto de pânico nuclear, surgiu de um equipamento cotidiano, ao contrário das usinas nucleares dos temores da época. Essa experiência inicial despertou seu interesse ao rever um filme sobre o ocorrido anos depois, percebendo a escassez de narrativas ficcionais sobre o tema.
A ideia de desenvolver a minissérie ganhou força com a chegada do streaming, permitindo um tratamento mais complexo da narrativa. Quando chamado pela Netflix, Coimbra se uniu a uma equipe que já pesquisava o incidente há cerca de dois anos. Ele pediu uma ampliação das investigações, ouvindo mais pessoas e revisitando o material pré-existente.
O cineasta enfatizou que o objetivo central da minissérie é iluminar a memória do acidente e afirmou que ficou surpreso com a quantidade de pessoas fora da região que desconheciam o evento. Aunque o formato escolhido explorasse múltiplas perspectivas, Coimbra enfatizou a necessidade de condensar eventos complexos em um recorte temporal de três meses.
Sob o foco da obra, o contexto social da época — entre a redemocratização e a desconfiança nas instituições — foi considerado crucial. Os personagens foram desenvolvidos como representações sociais, mas respeitando a privacidade das figuras reais, alterando nomes e características. A mãe do personagem Mateus, por exemplo, inspira-se em uma verdadeira sobrevivente, refletindo as lutas diárias que enfrentou após a tragédia.
Luíza Odet Mota, sobrevivente e tia de uma das vítimas, trouxe um relato comovente ao compartilhar suas lembranças e a importância de preservar a memória. Atingida pela tragédia, ela mantém um acervo documental sobre o acidente e expressou sua determinação em manter a história viva para as futuras gerações. Luíza também mencionou os traumas persistentes enfrentados por seus filhos e a necessidade urgente de apoio contínuo por parte do Estado.
A antropóloga Telma Camargo, com extensa pesquisa sobre o desastre, falou sobre sua trajetória acadêmica em torno do acidente e o acervo que doou à Universidade Federal de Goiás. Ela advertiu para o risco de apagamento da memória ligado a desastres, ressaltando a importância de investigações e trabalhos comunitários na preservação da história. Camargo reconheceu que existem iniciativas que visam trazer o tema de volta ao debate público, demonstrando uma ação coletiva em busca de conscientização.
O Fica, desde sua fundação em 1999, tem se estabelecido como um importante espaço de intercâmbio entre arte, ciência e educação ambiental, atraindo a cada ano um público diversificado de várias partes do mundo. O festival, promovido com apoio de instituições como a Universidade Federal de Goiás e a Fundação Oswaldo Cruz, é um reflexo do engajamento em torno de questões ambientais e sociais.
Até o dia 21 de junho de 2026, a cidade de Goiás receberá uma programação diversificada, incluindo mostras cinematográficas, oficinas e debates voltados para a conscientização e trocas culturais em torno do cinema e do meio ambiente.
Fotos: Secult Goiás

