A intersecção entre fotografia e música ganhou nova expressão com a criação da “Sinfonia da Energia”, uma obra composta pelo músico e publicitário Jarbas Agnelli, que surgiu a partir de uma imagem capturada pelo fotógrafo Paulo Pinto em 2009, na cidade de Santana do Livramento, na fronteira com o Uruguai.
Durante suas férias, Paulo se deparou com uma cena inusitada ao observar um vizinho que alimentava pássaros. Embora seu objetivo inicial fosse registrar as aves no chão, ao olhar para cima, seu olhar foi atraído pelos pássaros empoleirados em fios elétricos, criando uma composição que, segundo ele, parecia uma partitura musical.
“Havia um grupo de passarinhos esperando a sua vez. Fiquei pensando: ‘Pô, interessante’. Desviei meu foco e percebi que aquilo era fascinante”, conta Paulo, refletindo sobre o momento.
A foto que Paulo publicou em um jornal em São Paulo chamou a atenção de Agnelli, que, inspirado pela imagem, decidiu traduzir as posições das aves em uma melodia. Após cortar a fotografia, ele se dirigiu ao piano e compôs uma peça musical que se transformou em um arranjo orquestral.
“Fiz uma melodia a partir da posição dos pássaros. Adorei o resultado e então elaborei um arranjo completo”, explica Jarbas.
Em resposta, Paulo enviou a foto original, que incluía mais aves que não estavam na versão publicada. Com essa informação adicional, Agnelli finalizou a composição e criou um vídeo explicativo que viralizou nas redes sociais, demonstrando como cada pássaro era representado por notas musicais. A composição, posteriormente, foi apresentada ao vivo com uma orquestra.
Em 2024, Jarbas e Paulo revisitaram o local que inspirou a obra, mas descobriram que a cena havia mudado significativamente. “Minha mãe não estava mais lá, o vizinho também não, e os passarinhos desapareceram. Aquela foi uma experiência única, que não poderia ser repetida”, lamenta Paulo.
“Entendo agora por que aqueles pássaros não estão mais aqui. Eles ganharam o mundo, literalmente”, conclui o fotógrafo.
O chupim, uma ave comum no Rio Grande do Sul, foi o gatilho para todo esse processo criativo. Em 2024, Jarbas foi convidado pela Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica a criar uma nova sinfonia, a “Sinfonia da Energia”, usando 60 fotos de aves enviadas por fotógrafos de diversas partes do Brasil.
“A partir das fotos, fiz o mesmo que antes: interpretei as notas. Só que agora tinha dezenas de imagens, permitindo uma conversa entre elas”, afirma Agnelli, detalhando o processo criativo.
A “Sinfonia da Energia” foi reconhecida internacionalmente ao ganhar o Leão de Ouro no Festival Internacional de Criatividade em Cannes, um dos prêmios mais prestigiados da publicidade. Esta distinção ratificou a importância da colaboração entre Paulo Pinto e Jarbas Agnelli, que transformaram um simples momento da natureza em uma obra-prima de poesia visual e sonora, impactando a cena cultural 17 anos depois.
